Depois do colapso,
voltei a ouvir música,
dançar valsas,
sensuais tangos.
Leio o obituário da bela vida
de Eros Volúsia, bailarina, 89 anos.
Era tão bonita que atraiu a atenção
da revista americana Life.
Sambas, maxixes e maracatus...
Pioneira na mistura do clássico com o popular.
Professora do Serviço Nacional de Teatro,
criou um curso de coreografia,
o primeiro no Brasil
a aceitar bailarinos negros.
A vida passa para todos,
Eros evoluiu...
(Eros Volúsia, poema inédito)
Foi assim que conheci Eros Volúsia (1914-2004): lendo seu obituário no jornal O Globo. No mesmo dia escrevi o poema acima. Já havia ouvido falar de sua mãe, a poeta Gilka Machado (1893-1980), nome de rua no Rio de Janeiro e figura ausente das antologias de literatura brasileira. Sua poesia era considerada popular e imoral. Um dia, comprei num sebo um livro de Gilka, Sublimação, Editora Biblioteca Von-Hager- Gintner, 1938.
Primeira bailarina a sambar com sapatilha de pontas, pesquisadora das danças populares, Eros também criava seu próprio figurino. Participou de filmes como Romance Proibido (1944), O Samba da Vida (1937), Caminho do Céu (1942) e o hollywoodiano Rio Rita (1942). ‘‘A Carmem Miranda dizia: ‘Vou imitar as suas mãos’. E eu respondia ‘pode copiar’, porque só se copia o que é bom’’. Contou Eros Volúsia, em 2002, na UNB, durante a inauguração de uma sala com o seu nome.

SAMBA
Mexendo com as ancas,
batendo com os pés,
trementes os seios,
virados os olhos,
os dentes espiando
a todos e a tudo,
brilhantes,
brilhantes,
por dentro dos lábios;
– creoula ou cafuza,
cabocla ou mulata,
mestiça ou morena –
não te ama sómente
quem nunca te viu
dansando,
sambando,
nas noites de lua,
mulher do Brasil!
Ganzás cascavelam;
aos uivos das cuícas,
gorgeiam violões...
e vozes se alongam
aos céus, arrozoando...
e dêdos arrancam
isochronos ruídos,
das pelles dos bombos,
das palmas das mãos.
Em meio aos terreiros,
que fauna,
que flora!
– papoulas e garças,
jaguares e lirios,
cipós e serpentes
orchideas e rôlas,
jasmins, puraqués,
colleios que enleiam,
que são sucurys...
olhares que assaltam
em botes ferozes...
sorrisos que se alam
com brancas plumagens...
roupagens que afloram
em vividas côres,
cheirando a baunilha,
priprioca, alecrim...
Em meio aos terreiros,
que sustos, que fugas,
que astucia, que heroismo,
brasilea morena,
em todos o seu corpo
que míngua
que cresce,
que sobe,
que desce,
assim, desmanchado
num sapateado !...
Brasilea morena,
parece que o chão
se move ao teu samba,
te anceia,
te busca,
te quer devorar !..
Brasilea morena
que forte attração
exerce em teus membros
a terra em que viças!
si, dentre o remoinho
das fartas anaguas
te vejo girar,
morena, supponho
que estás submergindo,
que o solo te absorve,
que vaes acabar.
Em meio aos terreiros,
teu vulto mareja,
teu vulto são ondas
de rythmos remotos:
ondas errantes de nostalgia;
ondas rebeldes de revolta;
ondas invasoras de conquistas;
ondas pensativas de montanhas;
ondas arfantes de rio;
ondas tumidas de carne;
ondas preguiçosas;
ondas precipitadas;
ondas de tentação.
Em meio aos terreiros,
teus membros trigueiros
têm curvas de gestos indetermináveis:
curvas que incitam
a pensar a fundo,
curvas que são da esphera deste mundo
e fazem noutro mundo acreditar;
curvas que de tal modo se procuram;
curvas cheias de tal palpitação,
que vejo em teus quadris desalinhada,
a Terra,
dançando a dança da procreação.
Ganzás cascavelam...
aos uivos das cuicas,
gorgeiam violões...
e vozes se alongam
aos céus, arrozoando...
e dedos arrancam
isochronos ruídos
das pelles dos bombos,
das palmas das mãos.
(Gilka Machado em Sublimação , Ed. Biblioteca Von-Hager- Gintner, 1938, optei por deixar na grafia original)
“Em sua composição coreográfica “Cascavelando”, Eros Volúsia faz uma tradução cênica do poema “Samba” de Gilka Machado, cujos elementos poéticos, por sua vez, foram inspirados nas danças de terreiro brasileiras. Nessa coreografia a bailarina na parte superior do tronco, faz gestos ondulantes que lembram o movimento das cobras ou das ondas do mar por meio de gestos sinuosos. Na parte inferior do tronco, nos quadris e nos pés, o movimento marca o ritmo do samba, compondo uma movimentação muito sensual.”
Há também uma biografia da bailarina, escrita por Roberto Pereira, Ed. Relume-Dumará, 2004. Encontrei cenas de Rio Rita (1942) no You Tube entretanto, não achei nenhum filme de Eros dançando.
Título: tico-tico no fubá de Zequinha de Abreu

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