sexta-feira, 7 de maio de 2010

vida! vida, vida, vida vida bandida


Libera a consciência de mim,

fluxo permeável de existência.

Desterra o que é só dentro,

para olhar fora,

o mundo

em colapso.

Cansei dessa mira aderente,

de habitar parte tão só, egoísta;

calar o que fora

reside em doação.

Emite um a mais, além,

para dentro de ampla

solidariedade.

Moro aqui, na terra da desfaçatez,

onde el rey não dá valor

nem a juiz, nem a pessoa comum.



foto g secchin

“Não podemos ficar subordinados ao que um juiz diz que podemos ou não."
Luiz Inácio Lula da Silva em 9/04/2010

“Sarney tem história no Brasil suficiente para que não seja tratado como se fosse uma pessoa comum.” 

Luiz Inácio Lula da Silva em 17/06/2009

“Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte Constituição da República Federativa do Brasil.” Preâmbulo da Constituição Nacional.

Daqui a pouco vamos ter Copa do Mundo, em seguida, eleições. Num ano em que começamos com tragédias “naturais” associadas aos desleixos políticos, parece que estamos vivendo em constante pânico e pane.




foto g secchin

Le Pain du Lapin


Aqui ao lado, tem gente bêbada,

falam gritando.

Pela lente do amor tudo muda.

Na outra mesa,

dizem que não há volta.

Só a morte não tem volta.

Posso sentar num café

e pensar que estou no Marais,

apenas pelo vinho,

pois os táxis são amarelos.

O sagrado existe.

E não há quem possa querer parar

de organizar seu desequilíbrio,

ao abraçar

a própria natureza.

Por isso,

antes de chegar em casa,

rezo,

antes de dormir,

também,

mesmo sem acreditar em um deus único.



foto maritza caneca

Saídas de Emergência

Escarafunchando

desentendidas travas

e objetos não identificados.

- o que se calou?

Pressupôs que prós

eram contra.

Desandaram prumos,

interpôs-se ré.

Seria novamente lixo

em prol do luxo

de expressar

delicadeza,

imperfeição,

insegurança.

A vida é doce, Lobão?

Conexões independentes

possibilitam

saídas de emergência.

Onde for pull puxe.

Onde for push empurre.

E onde for exit

não exite,

pule.


“(…)São novamente quatro horas, eu ouço lixo
no futuro

No presente que tritura, as sirenes que
se atrasam

Pra salvar atropelados que morreram, que fugiam

Que nasciam, que perderam, que viveram
tão depressa,

Tão depressa,

São novamente quatro horas, eu ouço lixo no futuro

No presente que tritura, as sirenes que se atrasam

Pra salvar atropelados que morreram, que fugiam

Que nasciam, que perderam, que viveram
depressa, depressa de mais

A vida é doce, depressa demais...

(…)
Trecho de A Vida é Doce de Lobão

*Título: Vida Bandida de Bernardo Vilhena
Vida bandida, Le Pain du Lapin e Saídas de emergência são poemas inéditos

segunda-feira, 29 de março de 2010

o sal da língua, a palavra mágica

A palavra mágica

 

como posso encontrar            a palavra escrita

a palavra certa                   escondida no sonho

verdade            mentira

flor       pedra        caos

a palavra nova      para

uma vida            antiga?

o  sol  surge  entre    as

nuvens

vejo homens encaminharam-se rompendo o dia

de   encontro  aos  seus    desejos     confusos

sofre   teu  rosto   o   vento  esculpe  teu  sorriso

teu  destino com teu leve   andar   ultrapassaste

o limiar do jardim                não viaje com neblina

na  estrada  você  fica  invisível  no alto  da serra

não  pergunte  se  o  amor   inventou  a   palavra

amor se os pássaros e os homens existem apenas

porque  descobriram  as  palavras    certas     para

poderem viver                ignorando a palavra morte

talvez ela também não exista

como posso apagar todas as palavras do mundo

de  minha  mente  para  sem  o  saber não existir

mais para  sempre  ou  quem sabe?  encontrar a

palavra mágica                                a palavra certa

 

Poema de Franco Terranova publicado em Diário (1895/1995), Trilogia do Vento, Ed. Nova Fronteira, 2001.

 

foto maritza caneca

Estreou em Curitiba, no festival de teatro,  a peça Cinema de Felipe Hirsch. E acaba de ser lançado seu primeiro filme,  Insolação, feito com Daniela Thomas. Desde, “A vida é feita de som e fúria”,  passando por uma série de peças, como "A morte do caixeiro viajante" e a penúltima,  "Não sobre o amor", também com Daniela Thomas, Felipe vem apresentando um trabalho de extremo apuro. Gosto tanto do que leio, em matéria de O Globo (segundo caderno, 21/03/2010) que prometo ficar de olho na programação cultural para não perder os dois, a peça e o filme.

O filme, quando não conseguimos, em meio às correrias do dia a dia,  chegar até a sala de cinema, ainda é possível assistir ao DVD. Apesar de, nada se comparar à nossa entrega no escurinho do cinema. Mas o teatro, como qualquer arte, só acontece quando há uma espécie de comunhão entre a obra e o espectador. Além disso, Felipe disse coisas lindas, como quando, por exemplo, fala da música: “por que a música é tão poderosa? Porque ela é, pelo menos em relação a cinema ou teatro, a arte com menos tempo de mediação.”

E foi comunhão o que aconteceu com a platéia em Simplesmente Eu, Clarice Lispector de Beth Goulart, o teatro cheio, recebendo pura Clarice, na veia. Praticamente todas as palavras são de Clarice. É muito gostoso quando você começa a perceber que aquela é ela, a escritora, de carne e osso,  ou então é Lóri de “uma aprendizagem”, ou  é a dona de casa que fica atordoada com o cego que masca chicletes e vai parar no Jardim Botânico.  Tanto com quem já as conhece, como com quem não as conhece,  a atriz estabelece uma ponte muito bem embasada, sem perder toda a loucura da gênia criadora. Pois Clarice é de uma feminilidade crucial, plena de raiva e de amor, pelo outro e pelo mundo. E como observou Rosie Marie Muraro,  a quem Beth dedicou o espetáculo daquela noite, “ela sempre escreveu sobre ego, sobre o self, o umbigo, mas sempre com o mundo em perspectiva”.  

A comunhão entre Clarice, Beth e o espectador é de um alcance impressionante. E fui correndo, pensando que era a última semana, fiquei muito feliz em saber que a peça estréia em São Paulo, mas também vai continuar no Rio, às terças e quartas no Teatro SESI.

Um cisco no olho

faz alarde.

 

Quem fala

sobrevoa possibilidade.

 

Por sorte

comete vida.

 

É mais fácil encontrar

a vida em tentativa.

 

 

Poema sem título, publicado em Ventanias, Ed. Sete Letras, 1997

tela g. secchin

Voltando ao Felipe Hirsch. Ele critica o excesso de mediação e achismos no mundo de hoje. Não sei,  existe esse lado excessivo,  de opiniões e informação, mas me incomoda mais o vazio, a falta de opinião, a indiferença e a dificuldade em emitir juízos de valor, o que podemos chamar de blasezisse.

 

 

O Sal da Língua

 

 

Escuta, escuta: tenho ainda

uma coisa a dizer.

Não é importante, eu sei, não vai

salvar o mundo, não mudará

a vida de ninguém – mas quem

é hoje capaz de salvar o mundo

ou apenas mudar o sentido

da vida de alguém?

Escuta-me, não te demoro.

É coisa pouca, como a chuvinha

que vem vindo devagar.

São três, quatro palavras, pouco

mais. Palavras que te quero confiar.

Para que não se extinga o seu lume,

o seu lume breve.

Palavras que muito amei,

que talvez ame ainda.

Elas são a casa, o sal da língua.

 

Poema de Eugénio de Andrade, publicado em Le Seul de La Langue, Ed, La différence, 1999.