domingo, 30 de junho de 2013

eu quero é botar meu bloco na rua



A fala tende a desviar o alvo
o corpo treme
tentando se manter vinculado
a certa sinceridade atônita,

inquieta vicissitude,
já viu o azul virar escuridão
e vice-versa.






foto gsecchin







nós somos o tempo,
não são os anos que passam,
mas nós que passamos
Octavio Paz




Agora tenho isso vivo na cabeça –
em certo sentido é sufocante
aprofundar o que é capital.

Desculpe,
durante tanto tempo ter aumentado
a capacidade de resistência,
estagnação neurótica;

não queria individualizar,
nem universalizar,
expressar uma incorreção,
erro tão comum
não chega a ser involuntário;

insistir em parecer feliz
quando até o belo parece triste,
quando a mesmice assombra,
agora é o novo.



Aforismos Apócrifos e Aleatórios




De caos em caos a galinha enche o papo.

Ser educado e acreditar que está sendo educado não são a mesma coisa.

Toda rua tem um troglodita.

Um acontecimento é algo que escapa a normalidade.









foto gsecchin




Malabarista




Exorbitância volumosa
contradizendo com
imensa carência global.

Equilibrista,
a corda balança,
tremo,
a voz do mundo assusta,
repele,
nada ileso.

Investigações, deslizes, extremos.
Discordo, concordo, debato.
Mentira, consinto.

Não quero uma epopeia,
nem quero estandartes,
até seguro uma bandeira,
porém antes aviso:
– Se cansar eu largo.


Poema publicado em Ventanias, Ed. Sete Letras, 1997




Combate essencial



Continuar surpreendendo
o mundo dentro do mundo.

A verdadeira harmonia é a desarmonia,
ambivalência sem ponto de vista absoluto
carrega dentro de si o seu contrário
como outro lado.

O equilíbrio foge dos extremos,
para que alguma verdade –
que não existe de antemão –
aconteça.




foto gsecchin


título: eu quero é botar meu bloco na rua de Sérgio Sampaio














terça-feira, 28 de maio de 2013

daqui pra frente, tudo vai ser diferente




foto maria teresa moreira




Nada voltará ao normal,
mesmo que você siga a estrada da capital secreta,
abrace a árvore da infância,
escute no rádio aquela música,
aquela música linda
do ensaio da lira de ouro.

Exílio de praia e de montanha,  
rastro de metal pesado,
poluição vampiresca,
cera quente na derme lúcida.

Crivo forte,
desesperadamente crítico,
implacavelmente arrasador,
destrambelha no inconsciente
vento uivante em soberba,
rígido demais, atônito, desconcertante,
captura, maltrata, ignora,
nem sempre nessa ordem.

Isca para anzóis de fino trato, 
inadequação a grosso modo.
Cuidado, senão vira terreno de escaras...

Do outro lado da cerca não cabe retorno,
não cabe retorno
no desgaste mórbido de órbitas ofendidas.



 Arame Farpado é um poema inédito





foto maria teresa moreira





No decorrer dos dias,
possíveis brechas,
recolhem-se sombrias
em pleno céu outonal.

O fato fútil,
a fala desviada,
unanimidades burras
transbordam ao sol da manhã,

ninguém se abraça,
ninguém atravessa a rua,

o nada acossando
o mundo partido,
suspenso,
sem palavra.



Nublado é um poema inédito





"Sou um homem quieto, o que eu gosto é ficar num banco sentado, entre moitas, calado, anoitecendo devagar, meio triste, lembrando umas coisas, 
umas coisas que nem valiam a pena lembrar."

Rubem Braga




Tanto que tenho falado, tanto que tenho escrito - como não imaginar que, sem querer, feri alguém? Às vezes sinto, numa pessoa que acabo de conhecer, uma hostilidade surda, ou uma reticência de mágoas. Imprudente ofício é este, de viver em voz alta.

Às vezes, também a gente tem o consolo de saber que alguma coisa que se disse por acaso ajudou alguém a se reconciliar consigo mesmo ou com a sua vida de cada dia; a sonhar um pouco, a sentir uma vontade de fazer alguma coisa boa.

Agora sei que outro dia eu disse uma palavra que fez bem a alguém. Nunca saberei que palavra foi; deve ter sido alguma frase espontânea e distraída que eu disse com naturalidade porque senti no momento - e depois esqueci.

Tenho uma amiga que certa vez ganhou um canário, e o canário não cantava. Deram-lhe receitas para fazer o canário cantar; que falasse com ele, cantarolasse, batesse alguma coisa ao piano; que pusesse a gaiola perto quando trabalhasse em sua máquina de costura; que arranjasse para lhe fazer companhia, algum tempo, outro canário cantador; até mesmo que ligasse o rádio um pouco alto durante uma transmissão de jogo de futebol... mas o canário não cantava.

Um dia a minha amiga estava sozinha em casa, distraída, e assobiou uma pequena frase melódica de Beethoven - e o canário começou a cantar alegremente. Haveria alguma secreta ligação entre a alma do velho artista morto e o pequeno pássaro cor de ouro?

Alguma coisa que eu disse distraído - talvez palavras de algum poeta antigo - foi despertar melodias esquecidas dentro da alma de alguém. Foi como se a gente soubesse que de repente, num reino muito distante, uma princesa muito triste tivesse sorrido. E isso fizesse bem ao coração do povo, iluminasse um pouco as suas pobres choupanas e as suas remotas esperanças.

A Palavra, crônica de Rubem Braga publicada em Histórias do Homem Rouco, Coleção O DIA



título:  Se Você Pensa de Roberto Carlos e Erasmo Carlos 


sexta-feira, 26 de abril de 2013

me dê motivo






Nada disso foi do jeito que eu quis.
Se fosse como eu quis, não haveria
de ser tão sofrido, tão infeliz.
Mas eu – o eu que sou – eu não seria.


Assim, não me lamento. Até me sinto
como quem tem não o que foi pedido,
e sim o que, guiado pelo instinto,
não pelo querer, teria querido.


O que de mais duro a vida me deu
– que dura mais quanto mais me custou
dele me acostar, e torná-lo meu –


o que não escolhi, mas me escolheu,
é o que, ao fim e ao cabo, mais eu sou.
Não é o eu que eu me quis. Mas sou eu.




Biographia literária VII, poema de Paulo Henriques Britto, publicado em Formas do Nada, Ed. Companhia das Letras, 2012



                                                                 foto marina casotti diniz



O mandante mor é o mercado, antigamente, eu ia ao mercado, comprava comida. Ele invadiu tudo, está na minha casa o tempo inteirinho, botei o pé na rua, então, é  um sufoco...Hoje, o mercado é um gigante, o monstro que manda no universo, já engoliu uma diversidade, até uma parte da camada de ozônio que cobre o planeta, já engoliu a saúde, a educação, as artes, até a história.

O grande aliado do monstro é  o monopólio, ele vem soterrando uma virtude fundamental, a livre concorrência, junto vem o sistema, os poderes e muitas bactérias que nos consomem, ao mesmo tempo que nos formam, nos constituem, por exemplo: dona corrupção e dona ganância, sua irmã siamesa.



(...)Mas o que eu acho é que não temos permitido que as crianças tenham e vivam a infância. Transformamos eles em miniadultos e consumidores em potencial. De alguma forma estamos tirando a magia das coisas.
Alan Ayckbourn


Gosto muito, quando entro num taxi e está ligado na rádio Bandeirantes, no programa do Boechat. Ele sempre trata de importantes denúncias que afetam o cotidiano dos cidadãos. Há pouco tempo, tinha uma senhora reclamando que no seu condomínio estão vendendo cerveja nas máquinas de refrigerantes do prédio. Chamaram o síndico, sabe o que ele disse? “As câmeras de segurança estão vigiando o pessoal...”

Não é possível esperar alguma reação do poder público, cada comunidade (o condomínio) deve tentar resolver seus problemas, caso isso não seja possível, depois de tentativas...O que eu quero dizer é que não adianta ocupar o legislativo e o judiciário com uma questão como  essa por exemplo.

Eu posso ser crítica economicamente, eu posso ser economicamente crítica, eu posso misturar poesia e dizer alguma coisa. Cada um vai entender do jeito que quiser, com os recursos que possui. Num discurso, tudo tem dois lados, mas algumas ideias possuem outros lados, não se limitando à horizontalidade ou à verticalidade. Brechas nas certezas, no pragmatismo.

As relações fundam a identidade do tempo. O que permanece escondido fica sem vida. O cotidiano faz a vida e depois tudo vira história.


foto marina casotti diniz



Por que não me deitar sobre este
gramado, se o consente o tempo,
e há um cheiro de flores e verde
e um céu azul por firmamento
e a brisa displicentemente
acaricia-me os cabelos?
E por que não, por um momento,
nem me lembrar que há sofrimento
de um lado e de outro e atrás e à frente
e, ouvindo os pássaros ao vento
sem mais nem menos, de repente,
antes que a idade breve leve
cabelos sonhos devaneios,
dar a mim mesmo este presente?


Presente, poema de Antonio Cicero dedicado a Eucanaã Ferraz, publicado em Porventura, Ed. Record, 2012


título: Me dê Motivo de Tim Maia