quarta-feira, 31 de julho de 2013

Você sabe que a maré não está moleza não







Palavras suadas
corrompidas virais,
caiu o pano,

vocação para lamúrias,
farta insurreição de mágoas,
hostilidades inconscientes.

Não compactuar,
seguir, sem se gabar
ou estacionar,

interessar-se, desinteressar-se
conforme genuíno movimento
do músculo cardíaco.

Uma voz detona
algo doce e você credita,
a verdade é sua.

“torna-te quem que tu és”*



Amargo Doce é um poema inédito





 foto maria kikoler




– Hoje tem festa?
– Estou atrasada!
– Será que vou conhecer o fulano?
– Merda, merda, não estou gostando dessa roupa.
– Help, help! Este cabelo tá um horror
– Coloca o turbante.
– Vou arrasar
– Lindo!
– Fico parecendo a Zora Yonara.


Cada uma está em sua casa,
entram e saem do banheiro freneticamente,
carregam móveis,
fazem coisas,
falam ao telefone,
lavam calcinha,
fazem maquiagem,
trocam de roupa,
tropeçam em coisas.

Ora falam com você,
ora com elas mesmas,
solilóquio –
ritmo frenético

cheio de pausas

quanto mais profunda a fala
e o pensamento.



Mulheres é um poema inédito






 foto maria kikoler



Física e tanto...
                          fragmentos de Einstein






Uma maçã que cai e a órbita da lua
são governadas pelas mesmas leis da gravidade:
massa, força e movimento.

Causas produzem efeitos,
forças agem sobre os objetos,
e tudo pode ser explicado
determinado e previsto:
em teoria.

Gases: 
bilhões de moléculas em colisão.

Uma corrente elétrica produz magnetismo.
A alteração de um campo elétrico pode, 
de fato,
produzir alteração de um campo magnético,
que por sua vez,
cria uma alteração destes campos elétricos:
ondas eletromagnéticas
ondas sonoras
                  ondas oceânicas

Como a luz e outras ondas eletromagnéticas emanam
dos corpos físicos?

A teoria quântica mina os conceitos estritos de causalidade...

Todas as minhas tentativas de adaptar as bases teóricas da física
falharam completamente.

Era como se tivessem tirado o chão de sob nossos pés,
não restando nenhuma fundação à vista.

Creio que essa coincidência não pode ser atribuída ao acaso.




Poema inédito elaborado a partir de trechos do livro, Einstein, sua vida seu universo, Walter Isaacson, Ed. Companhia das Letras,




* Nietzsche

título, Pode guardar as panelas, Paulinho da Viola


domingo, 30 de junho de 2013

eu quero é botar meu bloco na rua



A fala tende a desviar o alvo
o corpo treme
tentando se manter vinculado
a certa sinceridade atônita,

inquieta vicissitude,
já viu o azul virar escuridão
e vice-versa.






foto gsecchin







nós somos o tempo,
não são os anos que passam,
mas nós que passamos
Octavio Paz




Agora tenho isso vivo na cabeça –
em certo sentido é sufocante
aprofundar o que é capital.

Desculpe,
durante tanto tempo ter aumentado
a capacidade de resistência,
estagnação neurótica;

não queria individualizar,
nem universalizar,
expressar uma incorreção,
erro tão comum
não chega a ser involuntário;

insistir em parecer feliz
quando até o belo parece triste,
quando a mesmice assombra,
agora é o novo.



Aforismos Apócrifos e Aleatórios




De caos em caos a galinha enche o papo.

Ser educado e acreditar que está sendo educado não são a mesma coisa.

Toda rua tem um troglodita.

Um acontecimento é algo que escapa a normalidade.









foto gsecchin




Malabarista




Exorbitância volumosa
contradizendo com
imensa carência global.

Equilibrista,
a corda balança,
tremo,
a voz do mundo assusta,
repele,
nada ileso.

Investigações, deslizes, extremos.
Discordo, concordo, debato.
Mentira, consinto.

Não quero uma epopeia,
nem quero estandartes,
até seguro uma bandeira,
porém antes aviso:
– Se cansar eu largo.


Poema publicado em Ventanias, Ed. Sete Letras, 1997




Combate essencial



Continuar surpreendendo
o mundo dentro do mundo.

A verdadeira harmonia é a desarmonia,
ambivalência sem ponto de vista absoluto
carrega dentro de si o seu contrário
como outro lado.

O equilíbrio foge dos extremos,
para que alguma verdade –
que não existe de antemão –
aconteça.




foto gsecchin


título: eu quero é botar meu bloco na rua de Sérgio Sampaio














terça-feira, 28 de maio de 2013

daqui pra frente, tudo vai ser diferente




foto maria teresa moreira




Nada voltará ao normal,
mesmo que você siga a estrada da capital secreta,
abrace a árvore da infância,
escute no rádio aquela música,
aquela música linda
do ensaio da lira de ouro.

Exílio de praia e de montanha,  
rastro de metal pesado,
poluição vampiresca,
cera quente na derme lúcida.

Crivo forte,
desesperadamente crítico,
implacavelmente arrasador,
destrambelha no inconsciente
vento uivante em soberba,
rígido demais, atônito, desconcertante,
captura, maltrata, ignora,
nem sempre nessa ordem.

Isca para anzóis de fino trato, 
inadequação a grosso modo.
Cuidado, senão vira terreno de escaras...

Do outro lado da cerca não cabe retorno,
não cabe retorno
no desgaste mórbido de órbitas ofendidas.



 Arame Farpado é um poema inédito





foto maria teresa moreira





No decorrer dos dias,
possíveis brechas,
recolhem-se sombrias
em pleno céu outonal.

O fato fútil,
a fala desviada,
unanimidades burras
transbordam ao sol da manhã,

ninguém se abraça,
ninguém atravessa a rua,

o nada acossando
o mundo partido,
suspenso,
sem palavra.



Nublado é um poema inédito





"Sou um homem quieto, o que eu gosto é ficar num banco sentado, entre moitas, calado, anoitecendo devagar, meio triste, lembrando umas coisas, 
umas coisas que nem valiam a pena lembrar."

Rubem Braga




Tanto que tenho falado, tanto que tenho escrito - como não imaginar que, sem querer, feri alguém? Às vezes sinto, numa pessoa que acabo de conhecer, uma hostilidade surda, ou uma reticência de mágoas. Imprudente ofício é este, de viver em voz alta.

Às vezes, também a gente tem o consolo de saber que alguma coisa que se disse por acaso ajudou alguém a se reconciliar consigo mesmo ou com a sua vida de cada dia; a sonhar um pouco, a sentir uma vontade de fazer alguma coisa boa.

Agora sei que outro dia eu disse uma palavra que fez bem a alguém. Nunca saberei que palavra foi; deve ter sido alguma frase espontânea e distraída que eu disse com naturalidade porque senti no momento - e depois esqueci.

Tenho uma amiga que certa vez ganhou um canário, e o canário não cantava. Deram-lhe receitas para fazer o canário cantar; que falasse com ele, cantarolasse, batesse alguma coisa ao piano; que pusesse a gaiola perto quando trabalhasse em sua máquina de costura; que arranjasse para lhe fazer companhia, algum tempo, outro canário cantador; até mesmo que ligasse o rádio um pouco alto durante uma transmissão de jogo de futebol... mas o canário não cantava.

Um dia a minha amiga estava sozinha em casa, distraída, e assobiou uma pequena frase melódica de Beethoven - e o canário começou a cantar alegremente. Haveria alguma secreta ligação entre a alma do velho artista morto e o pequeno pássaro cor de ouro?

Alguma coisa que eu disse distraído - talvez palavras de algum poeta antigo - foi despertar melodias esquecidas dentro da alma de alguém. Foi como se a gente soubesse que de repente, num reino muito distante, uma princesa muito triste tivesse sorrido. E isso fizesse bem ao coração do povo, iluminasse um pouco as suas pobres choupanas e as suas remotas esperanças.

A Palavra, crônica de Rubem Braga publicada em Histórias do Homem Rouco, Coleção O DIA



título:  Se Você Pensa de Roberto Carlos e Erasmo Carlos