terça-feira, 6 de janeiro de 2015

e depois que a tarde nos trouxesse a lua





A moldura se soltaria em escombros
Na fome de pescar saída,
somente clareza,
misturaria hipérboles em série
conseguindo liquefazer a loucura.

Base bolsa estrutura,
mercados degenerados,
a pasta!
Espere a pasta,
espere,
se alguma questão plasmar por si mesma,
não duvide,
ela vai precisar de uma escovação!
Assim, se tornará premente: calma
em pensamento.





foto Toti Jordam sobre trabalho de Bel Barcellos





Rosa choque




Depois que as cores entram pelas unhas,
já não é possível passear sem elas,
entram na circulação sanguínea
e esperamos que sejam abençoadas,
não façam mal,
escorram por seus ciclos,
acolham mutações.

Estações impõem seus tons,  
geadas máculas sensações,
amadurecimento tempo gestação.

Se a hora é de navegar,
já no barco,
quem navega é o mar.

“não sou eu quem me navega
quem me navega é o mar”*



“Dos sonhos que temos, das coisas que almejamos, depois de um certo tempo percebemos que não se pode fazer tudo, que alguns sonhos são realizados, muitos não. Você não lê todos os livros que acumulou na sua biblioteca, mas nem por isso vai deixar de ler, nem por isso vai deixar de sonhar, de almejar. Isso de uma certa forma espero que esteja no meu trabalho. A dúvida diante da incerteza não pode ser derrotista nem negativa, de que realmente não há solução, não tem jeito. Penso que há momentos de resignação e outros de rebeldia, de não conformismo com a situação, particular ou não. Mas as coisas passam, as modas, as propostas, as experiências. Meus sambas tratam da sensação de angustia ou resignação diante dessa instabilidade da vida, da impossibilidade de falar do futuro, de ter certeza sobre as coisas. A vida é jogo de xadrez, mas nos escapa e a resposta natural que o samba dá é deixar-se levar como um marinheiro à deriva. A vida é tão instável...” Paulinho da Viola





foto Toti Jordam sobre trabalho de Bel Barcellos


UM LANCE DE DADOS

 JAMAIS


MESMO ATIRADO EM CIRCUNSTÂNCIAS ETERNAS


DO FUNDO DUM NAUFRÁGIO

PORQUE
            o Abismo

Branco
             se expõe
                        furioso

                                   sob uma inclinação
                                               desesperadamente  plana
                                                                                  d’ asa
                                                                                 
                                                                                              a sua

recaída prévia dum mal de se erguer no voo
                                    cobrindo os impulsos
                                               cortando rente os ímpetos

            no âmago se resume

a sombra que se afunda nas profundas nessa alternativa vela

                        para adaptar
                                   a tal envergadura
           
                as suas horríveis profundas como o arcaboiço

                        duma construção
                 que balança dum lado
                                               para o outro



            O MESTRE

emerge
            inferindo

                                                                                              dessa conflagração

                                                                                                                      que se

                                                                                 
como uma ameaça

o único Número que não pode


hesita
cadáver descartado
em lugar
            de jogar
                        como um velho maníaco
                                               a partida
                                   em nome das marés

um


naufrágio assim
livre dos antigos cálculos
       esquecido o manobrar com a idade

           
                        outrora ele empunhava o leme

a seus pés
            num horizonte unânime
prepara
            se agita e se envolve
                        no punho que o ligará
ao destino dos ventos

            ser um outro

                        Espírito
                                   para o Lançar
                                                           na tempestade
                                               e redobrar a divisão e passar altivo

pelo braço do segredo que encerra





invadiu o comandante
correndo pela barba submersa

vindo do homem

            sem nau
                        insignificante
                                               onde será vão

ancestralmente abrir ou não a mão
                                               crispada
                                   além duma cabeça inútil

            legada em desaparição
           
                                               a alguém ambíguo

                                           imemorial ulterior demónio

nos seus lugares do nada

                                   induz
o ancião a essa conjunção suprema com a probabilidade

                                    o tal
                                          da sombra pueril
acariciada e polida aparada e lavada
                                   amaciada pela onda e afastada
                                     dos ossos duros perdidos em bocejos

                                               nascido
                                                           dum descuido
jogando o mar por antepassado ou o antepassado contra
                                    o mar
                        numa sorte ociosa

São núpcias

da qual a ilusão é uma vela solta obcecada
com o fantasma dum gesto

            que oscila até cair
           
                                               na loucura







Um Lance de Dados Jamais Abolirá o Acaso ( Un Coup de Dés Jamais N'Abolirá Le Hasard) Poema de Stéphane Mallarmé (1842-1898)
Tradução para o português de Armando Silva Carvalho, publicado em "A Tarde de um Fauno e Um lance de Dados", editora Relógio d’água, Lisboa, Portugal, 2007

título:  Eu e a brisa, Johnny Alf


* verso de Timoneiro, música de Paulinho da Viola e Hermínio Belo de Carvalho.


Os trabalhos das fotos são da artista Bel Barcellos



segunda-feira, 13 de outubro de 2014

eu vi chover, eu vi relampear






foto solange casotti



O nome dela era Marta, teve cinco filhos e morava em Mesquita. Quando o filho de 18 anos foi preso ela começou a adoecer. Alta, mais de 1.80m,  parecia saída de um quadro de Di Cavalcanti. Um corpo de violão, traços fortes, uma chiqueza natural que fazia com que suas roupas ficassem bem com as sandálias coloridas, brincos e pulseiras que gostava de usar.

Levava duas horas e meia para chegar ao trabalho. Era manicure num pequeno salão em Ipanema. A patroa a tratava bem e a pagava corretamente. Todos os dia, ela enfrentava o metrô lotado. Deixava o mais novo de 5 anos por conta da avó. A outra de 8 ficava por conta da filha mais velha que tinha problemas mentais, mas já era mãe de um menino.

De vez em quando aparecia no batidão do funk do fim de semana. Depois da prisão do mais velho, só  pensava numa maneira de tirá-lo de lá, nas visitas e no que poderia levar para agradá-lo.

No salão, todos começaram a notar como estava cada vez mais magra.  A pele estourava com furúnculos. Nada a apetecia. Teve esperança, o menino ia sair da prisão. Uma cliente deu dinheiro para uma consulta em Copacabana. O dinheiro acabou comprando uma bermuda para o filho que saia da prisão.

Marta começou  a notar que o outro filho de 16 estava gastando, chegava em casa com comida e roupas novas, sabia que também estava no tráfico, conversava pouco. Pensava no que ela podia oferecer.

O mais velho voltou, saiu da prisão. Não durou um mês, vieram avisar. O corpo estendido no asfalto. Foi polícia? Foi traficante?

Depois dos trâmites e enterro, Marta sem comer, pesava sessenta quilos.
Tirou as férias que tinha direito e pouco levantava. A filha com problemas mentais trazia comida, ela não conseguia comer. O pequeno fazia um carinho antes de ir para a casa da avó. Vontade nenhuma. Nem a irmã, nem o ex-marido apareciam. A vizinha a levou para o hospital. Dois dias depois a filha a tirou de lá, assinando um termo de responsabilidade. Entraram no metrô, Marta fraca, pensou que queria ver os outros filhos, mas seria melhor ficar no hospital.

A dona do salão ligou. A filha disse que Marta não podia falar. Na semana seguinte, a dona do salão ligou, ela não podia falar. Aos 47, com 45 quilos, Marta morreu em casa. Depois veio o ex marido, saber se tinha direito a algum dinheiro para o filho.




foto solange casotti





Jardim para Octavio Paz 






Essa vibração verde é uma planta envolta em ar
este verde é o ar que perfuma
este perfume é a linguagem da planta

                        Eu não sou nada
                        se não sou a planta
                                                            o ar
                                                                        a fragrância

e nada é nada
se não se vê que nada é nada
                        aqui
                        agora
Um menino brinca no gramado
escolhe uma árvore
                        outra
                                    outra
vai de uma árvore até o meio do jardim
corre até outra árvore
                                                até outra
volta ao centro

Um pássaro canta
e lá de fora
árvores menino e pássaro
não são isso

Lá de fora é
de dentro
para quem olha como quem
ama
                        como quem
luta
como quem
passa através de nenhum
                                    obstáculo

A prova mais dura
o salto que consiste em
ficar imóvel à margem da
plenitude sem margens
que
(a plenitude)
não existe como imagem nem suporte

E então
           o menino chega até a árvore
e se entende que não havia pássaro cantando
que o canto era esse nome
que recebe esse ato
para quem está olhando como quem
ama
            como quem
vive
            como quem
sabe que as árvores
a verde vibração
que é a planta
            envolta em ar
o salvam de ser aquilo
que todo o resto insiste em dar-lhe
a partir de sapatos
                        mulheres
                                    espetáculos
                                                            dias
O que olha é agora o olhado
mas o menino
                        escolhe novamente uma árvore
corre e retorna
e outra vez corre e volta

O olhado fica para lá
e o que olhava volta a ser
aquele que olha

Até que algum dia quem sabe
Até que não haja retorno


Poema de Julio Cortázar, traduzido por Ari Roitman e Paulina Wacht publicado em “Último Round”, ed. Civilização Brasileira, 2008


Marta é um conto inédito
 título: "nem ouro, nem prata" Ruy Maurity e José Jorge