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quarta-feira, 28 de novembro de 2012

enquanto eu corria assim eu ia






Os encontros são indeterminados,
põe em contato um futuro.

Dentro do tempo, o agora é laço.
Somos nós
o tempo dos nossos corpos,
um futuro que pode afetar o passado.

Fora do vivo é o futuro do vivo,
Dentro do tempo, o agora é laço.



Nexus, poema inédito d’après Luiz Alberto Oliveira




foto hermano taruma




Neste mundo, onde os sofrimentos se confundem
e se apagam, só reina a Fórmula. Cioran



“Quando menos pode ser mais” – é uma máxima pouco utilizada em tempos de tudo tem que ser “o melhor”.  No entanto, em muitas ocasiões essa pode ser a grande sacada. Não digo nem: a dose certa ou o equilíbrio, a hora certa ou a companhia certa. Saber o certo, como? Tem coisas  que só fazendo para saber se é o certo e talvez nunca venhamos a saber. Entretanto, certas atitudes, de cara, não estão certas. Mas as motivações pessoais estão tão exacerbadas que o sujeito vai agindo sem nenhum tipo de questionamento ou escrúpulo.

Como fazer com que a intolerância e as imensas desigualdades sociais sejam coisas do passado? Quantos mensalões existem, quantos serão punidos? O pior é roubar do futuro a possibilidade de uma água limpa, um ecossistema típico da orla, uma praia como a da Reserva. Como autorizar uma construção num espaço como aquele, bem ou mal, até agora preservado? Não deveria ser um espaço recreativo, esportivo, nem mesmo um espaço artístico, é um espaço da natureza. Li sobre duas justificativas para o projeto: a vegetação nativa não está preservada, as construções que estão ao lado jogam esgoto in natura na água, uma das contrapartidas é cuidar desses dois problemas. São duas coisas que poderiam ser feitas pela prefeitura, independentemente de qualquer empreendimento imobiliário. Salvem a praia da Reserva!




foto hermano taruma


Oração



Essa ocasião
poderia ser
um raio de sol,
letreiro de bar, marca
de jeans,
encarnado, vermelho
luz onde você
espera e
golpes de gratidão.
Ou um nome
ao longo
de um vagão de metrô
que somente faz sentido
quando você fala bem alto
na sua cabeça
enquanto passa.


Prayer



Its occasion
could be
a spot of sun,
bar sign, label
on jeans,
carnation, red
light where you
wait and
gratitude hits.
Or a name
the length
of a subway car
that only makes sense
when you say it aloud
in your head
as it passes.


Poema de Lia Purpura, publicado na revista New Yorker de 19.11.12, traduzido por Solange Casotti






foto hermano taruma


título, Preta Pretinha, Os Novos Baianos


Nexus, poema inédito feito a partir da conferência "Tempo e Fluxo" apresentada por Luiz Alberto Oliveira no ciclo "o futuro não é mais o que era" 




terça-feira, 8 de novembro de 2011

o amor, o sorriso e a flor




A água como se fosse a vida. O alongamento, a agilidade, a síntese do movimento. O corpo sem o impacto, a leveza de boiar e olhar o céu, a luz e as árvores.

O essencial pode estar escrito, pode estar desenhado e pode se concentrar mudo no olhar. Pode se repetir chato, estremecer o mundo, se fixar num lugar.

A prática decifrada por teoria frágil que de forte tem o pensar. Arremessado para fora do tempo vivido. Escutado como prosa, sermão, documento, matéria viva, não paga.

A soma de todos os medos, os prazeres sem culpa, tantos desejos dispersos, absolutamente indesejáveis, talvez incompatíveis, justificativas injustas. Breves rompantes de petulância maléfica, relevantes.

Somam-se aí todas as práticas e antecedentes e resultados e o que se torna se muda, quando se descobre e é desejável, compatível e justo.
  



 foto analu prestes 





Ponto de partida




A pessoa não sustenta estar em cena,
se ausenta, seja aonde estiver,
só suporta a solidão, o quarto escuro,
refeições em copas conhecidas,
trancada a leste de um umbigo adjacente,
no máximo a oeste,

e nada de pena,
o mundo não suporta a piedade,
já se encheu...
– Autoestima é tudo.
(entreouvido numa caminhada na lagoa)
– Sou rica.
(entreouvido no facebook)
E continua...
Vê se conclui alguma coisa.






foto analu prestes 


Cosmovisão

                           d’après Luiz Alberto Oliveira


Caminante, son tus huellas
el camino, y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante, no hay camino,
sino estelas en la mar.
           Antonio Machado


Estabilidade e caos,
infinitos ciclos,
as configurações não são fixas,
tudo flui...
não importa o padrão,
o suporte,
o sistema,

expressar-se implica transcendência
e realidade cotidiana,

o maestro catalisador
facilita ou dificulta a combinação,
muda o andamento. 

Não é possível descrever
o que se passa em um litro d’água,

a realidade é intensa,
variável, incerta,
abandonemos a presunção,

uma idéia e a terra se move,

a massa não é inerte,
diferentes formas
vão cair de formas diferentes, 

a análise não pode ser redutiva,
combinação é alquimia,

momento de deriva,
os deuses estão se rearranjando,

a realidade é intensa,
variável, incerta,
abandonemos a presunção,

a natureza é expressiva
inventa recursos para criar,
basta saber escutá-la.



Este poema foi  “extraído” das anotações que fiz ao longo da conferência intitulada "Sobre inércia e estabilidade" de Luiz Alberto Oliveira realizada na ABL, Rio de Janeiro, em 3 de outubro de 2011. Parte do ciclo organizado pelo Artepensamento e Adauto Novaes, o mutações elogio à preguiça. 


Imperdíveis: duas peças que estão em cartaz: Palácio do Fim e Mulheres Sonharam Cavalos. Textos densos, ótimos trabalhos de atores, direção, cenografia...


 Título: Meditação de Antônio Carlos Jobim e Newton Ferreira Mendonça