quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

e o tico-tico só, o tico-tico lá

Depois do colapso,

voltei a ouvir música,

dançar valsas,

sensuais tangos.

 

Leio o obituário da bela vida

de Eros Volúsia, bailarina, 89 anos.

Era tão bonita que atraiu a atenção

da revista americana Life.

 

Sambas, maxixes e maracatus...

Pioneira na mistura do clássico com o popular.

Professora do Serviço Nacional de Teatro,

criou um curso de coreografia,

o primeiro no Brasil

a aceitar bailarinos negros.

 

A vida passa para todos,

Eros evoluiu...

 

 

(Eros Volúsia, poema inédito)

 

 

 

 

Foi assim que conheci Eros Volúsia (1914-2004): lendo seu obituário no jornal O Globo. No mesmo dia escrevi o poema acima. Já havia ouvido falar de sua mãe, a poeta Gilka Machado (1893-1980), nome de rua no Rio de Janeiro e figura ausente das antologias de literatura brasileira. Sua poesia era considerada popular e imoral. Um dia, comprei num sebo um livro de Gilka, Sublimação, Editora Biblioteca Von-Hager- Gintner, 1938. 

Ao pesquisar fotos de Eros, para minha surpresa, encontrei um livro em que é analisado o modo como a produção artística das duas, mãe e filha, se misturavam. Soraia Maria Silva, bailarina e mestre em artes/dança pela Unicamp, doutora em literatura pela UNB, publicou Poemadançando: Gilka Machado e Eros Volúsia, editora  UNB, 2007.

 “(...)Na tentativa de compreender a construção da linguística corporal no ato da dança e sua conexão com a linguagem literária verificou-se a poesia de Gilka Machado (1893-1980) e a dança de Eros Volúsia (1914-2004). A dança de Eros Volúsia mantém, em sua estética do movimento, muitas referências simbolistas, expressionistas e modernistas, esboçadas ou mesmo desenvolvidas nos poemas de Gilka Machado. (...)”

Primeira bailarina a sambar com sapatilha de pontas, pesquisadora das danças populares, Eros também criava seu próprio figurino. Participou de filmes como Romance Proibido (1944), O Samba da Vida (1937), Caminho do Céu (1942) e o hollywoodiano Rio Rita (1942). ‘‘A Carmem Miranda dizia: ‘Vou imitar as suas mãos’. E eu respondia ‘pode copiar’, porque só se copia o que é bom’’. Contou Eros Volúsia, em 2002, na UNB, durante a inauguração de uma sala com o seu nome.

 

 

 

 

SAMBA

 

Mexendo com as ancas,

batendo com os pés,

trementes os seios,

virados os olhos,

os dentes espiando

a todos e a tudo,

brilhantes,

brilhantes,

por dentro dos lábios;

– creoula ou cafuza,

cabocla ou mulata,

mestiça ou morena –

não te ama sómente

quem nunca te viu

dansando,

sambando,

nas noites de lua,

mulher do Brasil!

 

Ganzás cascavelam;

aos uivos das cuícas,

gorgeiam violões...

e vozes se alongam

aos céus, arrozoando...

e dêdos arrancam

isochronos ruídos,

das pelles dos bombos,

das palmas das mãos.

 

Em meio aos terreiros,

que fauna,

que flora!

– papoulas e garças,

jaguares e lirios,

cipós e serpentes

orchideas e rôlas,

jasmins, puraqués,

colleios que enleiam,

que são sucurys...

olhares que assaltam

em botes ferozes...

sorrisos que se alam

com brancas plumagens...

roupagens que afloram

em vividas côres,

cheirando a baunilha,

priprioca, alecrim...

 

Em meio aos terreiros,

que sustos, que fugas,

que astucia, que heroismo,

brasilea morena,

em todos o seu corpo

que míngua

que cresce,

que sobe,

que desce,

assim, desmanchado

num sapateado !...

 

Brasilea morena,

parece que o chão

se move ao teu samba,

te anceia,

te busca,

te quer devorar !..

Brasilea morena

que forte attração

exerce em teus membros

a terra em que viças!

si, dentre o remoinho

das fartas anaguas

te vejo girar,

morena, supponho

que estás submergindo,

que o solo te absorve,

que vaes acabar.

 

Em meio aos terreiros,

teu vulto mareja,

teu vulto são ondas

de rythmos remotos:

ondas errantes de nostalgia;

ondas rebeldes de revolta;

ondas invasoras de conquistas;

ondas pensativas de montanhas;

ondas arfantes de rio;

ondas tumidas de carne;

ondas preguiçosas;

ondas precipitadas;

ondas de tentação.

 

Em meio aos terreiros,

teus membros trigueiros

têm curvas de gestos indetermináveis:

curvas que incitam

a pensar a fundo,

curvas que são da esphera deste mundo

e fazem noutro mundo acreditar;

curvas que de tal modo se procuram;

curvas cheias de tal palpitação,

que vejo em teus quadris desalinhada,

a Terra,

dançando a dança da procreação.

 

Ganzás cascavelam...

aos uivos das cuicas,

gorgeiam violões...

e vozes se alongam

aos céus, arrozoando...

e dedos arrancam

isochronos ruídos

das pelles dos bombos,

das palmas das mãos.

 

(Gilka Machado em Sublimação , Ed. Biblioteca Von-Hager- Gintner, 1938, optei por deixar na grafia original) 

 

“Em sua composição coreográfica “Cascavelando”, Eros Volúsia faz uma tradução cênica do poema “Samba” de Gilka Machado, cujos elementos poéticos, por sua vez, foram inspirados nas danças de terreiro brasileiras. Nessa coreografia a bailarina na parte superior do tronco, faz gestos ondulantes que lembram o movimento das cobras ou das ondas do mar por meio de gestos sinuosos. Na parte inferior do tronco, nos quadris e nos pés, o movimento marca o ritmo do samba, compondo uma movimentação muito sensual.”

Há também uma biografia da bailarina, escrita por Roberto Pereira, Ed. Relume-Dumará, 2004. Encontrei cenas de Rio Rita (1942) no You Tube  entretanto, não achei nenhum filme de Eros dançando.

 

Título: tico-tico no fubá de Zequinha de Abreu