quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

ziriguidum, ziriguidum, ziriguidum


foto gsecchin





Locomoção


Repara só o movimento,
espia só o apetite,
estamos pensando em mudar.

Parei tanto tempo sem escrever,
perdi o desejo lúbrico.
E a cabeça foi se enchendo:
rumores, sinapses, abstrações.

Coração de pedra,
sem campo para novos sonhos.

Cuidado com o mar,
o mar pega tudo. 
– Será que acredito?

Se crer é um estado anímico,
e a minha crença está na poesia,
posso dizer que vivo em estado poético?

Nada me tira a realidade, a angústia,
as agonias...
Estou à procura de uma salvação.
Vê se arruma uma salvação?

“Até a própria natureza está pedindo pra você ficar.” *

Ficar num foco positivo,
numa liberdade sadia.
Um interesse constante no outro,
nas coisas da vida,
nutrindo uma curiosidade latente,
um fluir
um porvir
fértil.




foto gsecchin 


O medo é o retraimento do espaço do possível que afeta a própria construção de nossa identidade sem reduto para nos esconder. O medo que nos vem de um fator externo em que não sabemos das normas. Enfim este sentimento está ligado a um núcleo muito egoísta, se nos esquecemos do eu e entramos em comunhão com o outro, espalhamos o seu conteúdo de subtração. Estima, respeito, esperança – a alteridade reconhecida – a humanidade aceita sem onipotência, um outro caminho para a inclusão no social, pela via do positivo, dessa pulsão de medo – e que muitas vezes se constitui no limite da harmonia da convivência entre as diferenças.
Elza Padua


A sensação de finitude é natural da vida. Vários acontecimentos históricos, guerras, catástrofes, violaram, feriram o percurso de forma tão violenta que mudaram a paisagem de uma hora para a outra. Nesse século, destaco o 11 de setembro americano.  Agora, o enorme choque da tragédia da serra no Estado do Rio. É impressionante e comovente a mobilização popular, no entanto, carecemos de coordenação para que a ajuda seja bem distribuída.

A natureza exagerou, a política foi negligente, mesquinha. O que acontece com os homens de boa vontade? A parte boa desaparece, sobra muito pouco, bem pouquinho. E a gente honesta tem horror à política, salvo exceções. Mas é ali, no meio das “velhas raposas” que está o poder de tomar as rédeas, agir em defesa de uma comunidade – comum unidade. E a alteridade sumiu umbigo afora, sumiu, escafedeu-se.

Extravagância e banalidade acompanham juntas os últimos acontecimentos. Elas não percebem, mas seus astutos amigos reparam como é comum mascarar dados, enfeitando pleitos. Aumenta-se os índices aceitáveis para engabelar os desinformados. Os mais informados permanecem de mão atadas numa democracia fake. Não há democracia sem um ministério público atuante, um estado em busca do direito.



*verso da música A Chuva Cai, Argemiro Patrocínio

Elza Padua, em Esquizofrenia Social, ensaio sobre a ética da sobrevivência, Editora Zouk, 2006






2 comentários:

  1. Sempre instigante e do maior bom gosto. Cês precisam aparecer no Leme uma quarta dessas.

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  2. Valeu, Eduardo! Numa dessas eu apareço.

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