sábado, 23 de agosto de 2014

bim bom bim bim bom bom




Quem será a moça do telefone vermelho
e do casaco perestroika?
Qual será a sílaba boba que insiste em perturbar?
Quem será o sábio e o ignorante?
Onde estará a pele e a essência,
o estímulo e o orgulho,
a perspectiva e o sonho,
o feijão e a mesa,
o bife?



Para as ciências a contradição não é um lugar onde se pode ficar à vontade. Nas artes e na linguagem poética, o autor é guardião de um outro tipo de conhecimento, onde há condições de conjugar diferentes realidades. Enquanto o espírito científico não aceita analogias e metáforas, o espírito poético permite preservar a multiplicidade, nele convivem solidão e comunhão. Ele permite escutar a “outra voz”, deixar que a sua voz seja invadida por uma outra, aquela que os gregos localizavam numa esfera transcendente e que pode ser a descoberta da sua própria. A voz alheia sempre continuará sendo algo que nos desafia. Ser é  linguagem – como o tempo, ela nos constitui, nos atravessa. Será que através dela seria possível um outro estar no mundo?




foto gsecchin


São 5 anos do blog tectônicas e 7 do livro Tectônicas ( ed. Bem-te-Vi, Rio de Janeiro, 2007). São mais tantos anos de atividade poética. A grande diversão de escrever esse blog é que além de publicar o poema mais recente, há um trabalho de edição que também gosto muito. Cada verso do poema abaixo é um verso de uma canção brasileira de diferentes autores, cada um é um post desse blog que você está lendo. 





tô ensaboando
verdadeiro ra ra ra
isso aqui ô ô, é um pouquinho de brasil iaiá
quero chorar não tenho lágrimas
no tabuleiro da baiana tem
coisa nº4
esse papo já coisa tá qualquer coisa
que é meu balangadã?
como é bom poder tocar um instrumento
você sabe que a maré não está moleza não
eu quero é botar meu bloco na rua
daqui pra frente, tudo vai ser diferente
me dê motivo
pro dia nacer feliz
não deixe o samba morrer
diz que deu, diz que dá
enquanto eu corria assim eu ia
todo dia era dia de índio
desejo, necessidade, vontade
pneu furou, acenda o farol
quem me dera agora eu tivesse uma viola pra cantar
alguma coisa está fora da ordem
vou me embora desse mundo de ilusão
de noite na cama eu fico pensando
não, não pode mais meu coração
quem é você que não sabe o que diz?
bananeira não sei, bananeira será
o amor, o sorriso e a flor
e cada verso meu será pra te dizer
o tempo rodou num instante
hô-ba-lá-lá
um vento bateu dentro de mim
ah! se o mundo inteiro me pudesse ouvir
besta é tu, besta é tu!
além do horizonte existe um lugar
ziriguidum, ziriguidum, ziriguidum
a sorrir eu pretendo levar a vida
lá vai o trem sem destino
caía a tarde feito um viaduto...




rené magritte


Um exercício poético!
Cinco anos do blog tectônicas!
Quando o blog fez um ano, postei:





título “bim bom” de João Gilberto




segunda-feira, 30 de junho de 2014

tô ensaboando




fiz uma rosa contemporânea
com um compasso

não cheira
nem sonho com ela

fiz um sonho com duas linhas
mas não acordo
nem sinto os olhos

fiz um quadrado
com a rosa dentro
nas duas linhas

e estava escrito meu desalento



poema de Fernando Lemos publicado em Fernando Lemos Percurso, Editora Bei, 2010




Substantivo e Verbo


                                             para mim o desenho se liga ao pensamento 
assim como a cor se liga à sensação
                                                                                                                    Richard Serra


ver
pensar
sentir
desenhar
articular
se perder
colorir
confrontar
delinear
gravidade
criar
serendipidade
platôs
passagens


Substantivo e Verbo é um poema inédito 





foto gsecchin








Do sentido à palavra,
da luz ao trovão,
da garganta seca
à metafísica da voz,

o corpo fluía na sequência,
amava no presente amor
não sei se puro, sagrado ou certo
não sei se certeza alguma,

aprendia como respirar,
liquefazendo a loucura
da polaridade do self
ao centro da cabeça.

É claro que só depois articulava,
e em meio a tantos retratos gritava:
Selfi-se quem puder!
Fodam-se para sempre!








foto gsecchin




O Cemitério de Praga


 

Ressonâncias de um canto de rua
de todas as idades.
Entre cidade alta e cidade baixa
As flores desabrochadas de crocus, malvas em sua passagem,
pensam ainda no seio do sol –
Quantas imagens se apressam em cavar seus passos, revestir as
calçadas,
de pergaminhos silenciosos

Pedras
Pedras são rostos
Rostos
São pedras
Pedrasrostos cinza amarelados
Desmoronados
Face ao sol, face a chuva
A súplica emudecida, a espera ratificada
Ruas
Ruas, são pedras
Pedras Rostos Ruas
São caminhos que mentem
Em promessas que se calam,
em sangue em poeira
que perduram




Poema de Penelope Galley traduzido por Solange Casotti


Le Cimetière de Prague





Résonances d’un coin de rue,
de tous les âges
Entre ville haute et ville basse
Les fleurs écloses de colchique, mauves de leurs trépas,
pensent encore au sein du soleil —
Que d’images s’em pressent pour creuser leurs pas, joncher les pavées
de parchemins silencieux
Pierres
Pierres, ce sont des visages

Visages
Ce sont des pierres
PierresVisages gris jaunes
Effritées
Face au soleil, face aux pluies 
La supplication muette, l’attente entérinée
Rues
Rues, ce sont les pierres
Pierres Visages Rues
Ce sont des chemins qui mentent
Des espoirs qui se taisent,
des saignées de poussière
qui perdurent

Poema de Penelope Galley


título: Ensaboa de Cartola












sexta-feira, 23 de maio de 2014

verdadeiro ra ra ra




Depois do giro absoluto do mercado,
empastelou-se
e nunca mais voltou...

Nada mais previsível
do que a próxima novidade,
além-lugar, fora,
insensível formação,
lançada no mundo
sem licença poética,
sem escolhas,
ansiedade tóxica,
nome e imagem
estratificados 
em unidade
cheia de cheiro, 
nenhum  sabor.


Passeio Incompleto


Mar adentro
pensamentoamparo
permitiria transcender
na retórica do meio,
positivo negativo composto,

seria possível
transformar a permanência,
se existisse força
para além do medo,
não fossem ameaças
tateando as paredes do ventre,
perigo na proa,
estatísticas caudalosas
destituindo o direito,
rota de abandono,
processo de dentro
para dentro,
fora da curva,
fora do eixo
rasas águas 
que afogam,

sem sintaxe
nem existiriam

e depois 
ainda ficaria faltando uma assinatura.


O Homem sem Conteúdo e Passeio Incompleto são poemas inéditos.




foto marcos morteira





O Pleno e o Vazio





Oh se me lembro e quanto.
E se não me lembrasse?
Outro seria minha’alma,
bem diversa minha face.

Oh como esqueço e quanto.
E se não esquecesse?
Seria homem-espanto,
ambulando sem cabeça.

Oh como esqueço e lembro,
como lembro e esqueço
em correntezas iguais
e simultâneos enlaces.
Mas como posso, no fim,
recompor os meus disfarces?

Que caixa esquisita guarda
em mim sua névoa e cinza,
seu patrimônio de chamas,
enquanto a vida confere
seu limite, e cada hora
é uma hora devida
no balanço da memória
que chora e que ri, partida?




Verdade




A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada uma optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

O Pleno e o Vazio e Verdade são poemas de Carlos Drummond de Andrade publicados em O Corpo, Editora Record, 1984.



foto marcos morteira








título: Meia Lua Inteira de Carlinhos Brown